sábado, 19 de junho de 2010

Discutindo com Deus e atormentando o diabo

... e lá se foi um dos maiores ícones da literatura de língua portuguesa.

Triste perda. Não ouso me prolongar para não cair no óbvio. Polêmico e provocante, em um momento desses está batendo boca com Deus e fazendo intriga com o diabo.

Com seu estilo inconfundível e inigualável, despeço-me utilizando uma de suas marcantes frases, retirada de "Ensaio Sobre a Cegueira":



"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago

sábado, 12 de junho de 2010

Poeta Picasso

          Nesta semana um aluno me mostrou diversos desenhos feitos em casa e um me chamou a atenção. Sua forma de traçar o perfil de um rosto me fez lembrar Picasso em Guernica:

Ilustração de Yuri Wendell de Lima Rodrigues, estudante do 3º ano do Ensino Fundamental I
EM Sagrado Coração de Jesus, Diadema, SP.
        
          No dia seguinte levei o livro "Picasso", de Ingo. F. Walther, para que os alunos conhecessem algumas de suas obras e a sua trajetória em busca de um estilo. Fiz uma leitura prévia de alguns tópicos na preparação da aula, e eis que me deparo com um poema do próprio artista a respeito dos horrores da guerra. Ele cala todas as tentativas de análises de Guernica:


"Guernica", 1937
Óleo sobre tela, 349,3 x 776,6 cm
Madrid, Museo Reina Sofia

"Gritos das crianças, gritos das mulheres, gritos dos pássaros, gritos das flores, gritos das árvores e das pedras, gritos dos tijolos, dos móveis, das camas, das cadeiras, dos cortinados, das panelas, dos gatos e do papel, gritos dos cheiros, que se propagam uns após outros, gritos do fumo, que pica nos ombros, gritos, dos que cozem na grande caldeira, e da chuva de pássaros que inundam o mar."

          Muito se fala de Guernica, mas pouco divulgado é "O ossuário", que de acordo com Walther, "foi criado sob o efeito das notícias sobre os campos de concentração libertados", e com ele Picasso "fecha o parênteses que tinha aberto com 'Guernica'":


"O ossuário", 1944/45
Óleo e carvão sobre tela, 119,8 x 250,1 cm
New York, Museum of Modern Art

          Um olhar atento ao que já nos parece comum na sala de aula proporcionou agradáveis momentos de fruição e reflexão que compartilho com muito prazer. Obrigada, Yuri.


"O que pensa que é um artista? Um idiota, que só tem olhos quando pintor, só ouvidos quando músico, ou apenas uma lira para todos os estados de alma, quando poeta, ou só músculos quando lavrador? Pelo contrário! Ele é simultaneamente um ente político que vive constantemente com a consciência dos acontecimentos mundiais destruidores, ardentes ou alegres e que se forma completamente segundo a imagem destes. Como seria possível não ter interesse pelos outros homens e afastar-se numa indiferença de marfim de uma vida que se nos apresenta tão rica? Não, a pintura não foi inventada para decorar casas. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo."
Pablo Picasso


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Poesia no Metrô

          O Metrô de São Paulo vem há algum tempo incentivando o hábito da leitura por meio de programas muito interessantes. O primeiro a ser implantado foi o "Embarque na Leitura", com bibliotecas em diversas estações. O mais recente (e envolvente) é o "Poesia no Metrô", com estampas de poemas da língua portuguesa na área interna das estações.

          A plataforma de embarque do Tatuapé tem poemas de ponta a ponta. É onde me refugio para não enlouquecer com os transtornos do embarque. É interessante, pois quando menos se espera aparece um. Hoje na curvinha da escada na estação Ana Rosa encontrei um adorável, de poucas palavras - mas de imenso significado:

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."
                                      Mário de Sá-Carneiro

          Passei a tarde cantarolando esse poema com a bela melodia de Adriana Calcanhoto. Fiz um Movie Maker bem simples com algumas imagens e esta deliciosa trilha sonora. Clique aqui para assistir.         

         






          Mário de Sá-Carneiro foi um poeta português contemporâneo de Fernando Pessoa, que ainda vai ter um espaço especial neste blog.

Para saber mais sobre o programa "Poesia no Metrô", clique aqui.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Biblioteca Verde

          Sempre me identifiquei com a poesia de Fernando Pessoa,  mas indiscutivelmente o poema que me seduziu foi um de Drummond, em que ele traduz o sentimento do amor pelos livros - não só a leitura em si, mas o prazer em manipular o livro, sentir seu cheiro, sua textura e a ânsia em desbravá-lo, em descobrir as surpresas que ele traz... vamos fruir!

Biblioteca Verde
Carlos Drummond de Andrade

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente

Zeus e Hera. Particularmente, o momento mais prazeroso dessa leitura é quando
ele descreve o momento de explorção das imagens com representações mitológicas.
          
          A cada leitura que faço dele compartilho a paixão do momento que o menino vive, que neste caso, me parece que foi inspirado no próprio Drummond, que ganhou essa coleção do pai aos 10 ou 11 anos.
          É fácil encontrar na internet informações sobre a "Biblioteca Internacional de Obras Célebres". Trata-se de uma coleção de 24 volumes (12.224 páginas) com  textos completos de grandes autores dos tempos antigos, medievais e modernos, publicadas na língua portuguesa em 1906.  
          Wilson Martins, em uma matéria para a Gazeta do Povo em julho de 1999, cita Arnaldo Saraiva, que resgatou a história dessa coleção:
 
          Não se sabe exatamente, escreve ele, "quem a organizou, nem quando e onde foi impressa e distribuída. As indicações editoriais, sempre as mesmas que ela contém em qualquer dos seus volumes são apenas as do editor "Sociedade Internacional" de "Lisboa Rio de Janeiro São Paulo Londres Paris", referindo redatores principais em 12 capitais e colaboradores em 16 países. Data de 1906 a edição em nossa língua, incluindo autores portugueses e brasileiros, "às vezes com numerosos textos: vejam-se sobretudo exemplos como o de Camões, com mais de 25 textos[] ou de Machado de Assis, com 11 textos. Mas o número de autores e de 'colaboradores e críticos especiais' brasileiros, que são destacados na própria folha de rosto [] José Veríssimo, Vicente de Carvalho, Artur Orlando, Reis Carvalho, Constâncio Alves, Lindolfo Collor, João Ribeiro, indica sem dúvida o público-alvo da edição []."


domingo, 6 de junho de 2010

Casas Amáveis

Boa noite, família e amigos...

Minha intenção neste blog é compartilhar textos que proporcionem reflexões sobre o que já não damos muita atenção devido aos compromissos cada vez mais sufocantes nessa louca vida.

Para inaugurar selecionei a crônica de Cecília Meireles "Casas Amáveis", extraída do livro "Escolha seu sonho" (Editora Record, 27ª edição), uma seleção de crônicas da autora em que se propõe uma nova visão sobre o comum, com uma convidativa sinopse escrita por Carlos Drummond de Andrade.


 

Casas Amáveis

Casa das Rosas, São Paulo - SP

        Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

        Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

        Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

       As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

        Os jardins tinham suas deusas, seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)

        E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.As famílias abrigavam cortejos de mortos.

        E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.

        As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis.

        Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.

        Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e suas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril.

        Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)

        E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes. Casas amáveis.