terça-feira, 8 de junho de 2010

Biblioteca Verde

          Sempre me identifiquei com a poesia de Fernando Pessoa,  mas indiscutivelmente o poema que me seduziu foi um de Drummond, em que ele traduz o sentimento do amor pelos livros - não só a leitura em si, mas o prazer em manipular o livro, sentir seu cheiro, sua textura e a ânsia em desbravá-lo, em descobrir as surpresas que ele traz... vamos fruir!

Biblioteca Verde
Carlos Drummond de Andrade

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente

Zeus e Hera. Particularmente, o momento mais prazeroso dessa leitura é quando
ele descreve o momento de explorção das imagens com representações mitológicas.
          
          A cada leitura que faço dele compartilho a paixão do momento que o menino vive, que neste caso, me parece que foi inspirado no próprio Drummond, que ganhou essa coleção do pai aos 10 ou 11 anos.
          É fácil encontrar na internet informações sobre a "Biblioteca Internacional de Obras Célebres". Trata-se de uma coleção de 24 volumes (12.224 páginas) com  textos completos de grandes autores dos tempos antigos, medievais e modernos, publicadas na língua portuguesa em 1906.  
          Wilson Martins, em uma matéria para a Gazeta do Povo em julho de 1999, cita Arnaldo Saraiva, que resgatou a história dessa coleção:
 
          Não se sabe exatamente, escreve ele, "quem a organizou, nem quando e onde foi impressa e distribuída. As indicações editoriais, sempre as mesmas que ela contém em qualquer dos seus volumes são apenas as do editor "Sociedade Internacional" de "Lisboa Rio de Janeiro São Paulo Londres Paris", referindo redatores principais em 12 capitais e colaboradores em 16 países. Data de 1906 a edição em nossa língua, incluindo autores portugueses e brasileiros, "às vezes com numerosos textos: vejam-se sobretudo exemplos como o de Camões, com mais de 25 textos[] ou de Machado de Assis, com 11 textos. Mas o número de autores e de 'colaboradores e críticos especiais' brasileiros, que são destacados na própria folha de rosto [] José Veríssimo, Vicente de Carvalho, Artur Orlando, Reis Carvalho, Constâncio Alves, Lindolfo Collor, João Ribeiro, indica sem dúvida o público-alvo da edição []."


2 comentários:

  1. Esta postagem me lembrou uma frase de Clarice Lispector mais ou menos assim: "era um livro para se ficar comendo-o, bebendo-o e dormindo-o"

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