domingo, 6 de junho de 2010

Casas Amáveis

Boa noite, família e amigos...

Minha intenção neste blog é compartilhar textos que proporcionem reflexões sobre o que já não damos muita atenção devido aos compromissos cada vez mais sufocantes nessa louca vida.

Para inaugurar selecionei a crônica de Cecília Meireles "Casas Amáveis", extraída do livro "Escolha seu sonho" (Editora Record, 27ª edição), uma seleção de crônicas da autora em que se propõe uma nova visão sobre o comum, com uma convidativa sinopse escrita por Carlos Drummond de Andrade.


 

Casas Amáveis

Casa das Rosas, São Paulo - SP

        Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

        Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

        Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

       As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

        Os jardins tinham suas deusas, seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)

        E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.As famílias abrigavam cortejos de mortos.

        E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.

        As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis.

        Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.

        Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e suas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril.

        Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)

        E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes. Casas amáveis.

7 comentários:

  1. Mundo de alienação...de coformismo e comodismo.Tudo igual...

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  2. Camila, adorei a crônica.Não sei se sabes mas escrevi um livro(já sancionado pela lei Rouanet de incentivo à Cultura) sobre Ladrilhos Hidráulicos, um piso feito artesanalmente,remanescente do sec XIX.(a Casa das rosas tem este piso)Como Cecília, Bachelard escreve em "A poética do Devaneio"(1988:160) que cada objeto bem considerado é capaz de criar em nós, um novo órgão, um órgão onírico. Então, através de lembranças habitamos a casa natal. Mesmo desaparecida, vivemos nela pelo resto de nossa vida.E diz "E quem jamais se curou de sua infância?" De certa forma os dois autores estão falando de um tempo já objetivamente passado, mas ainda vivo dentro de nós.Parabéns pela escolha do texto, uma delicadeza só! Vou acompanhar o blog.

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  3. Aiiaiaiaia que romatica rsrsrsr
    odeio predio, principalmente aqueles que não permitem a entrada do sol

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  4. Camila,
    Parabéns pela iniciativa!
    Adorei o texto..nos faz refletir e muito sobre essa vida corrida que nós amargamos todos os dias...
    Bjs
    Viviane

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  5. Fico feliz por terem gostado... e o convite para colaborações continua aberto!

    Angela, me passe o nome de seu livro. Gostei muito de sua citação de Bachelard.
    Não conheço a obra dele, mas já me interessei pelas sinopses que vi na internet.
    Obrigada pela indicação!

    Beijos para todos!

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  6. Camila, o livro está em fase de captação de recursos( já aprovados pela lei Rouanet). Quando estiver publicado te avisarei. Com certeza ele foi escrito sob os encantos de Gaston Bachelard.

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  7. A vida moderna eh tao sem graca, nao eh mesmo?

    Eu me pergunto onde a sociedade vai parar. Um mundo cheio de dinheiro, tecnologia e frieza.

    Eu sinto pelas geracoes que estao por vir.
    Eles simplesmente nao terao essa memoria, nao sentiram falta. Nascidos no mundo dos arranha-ceus, sem identidade, sem alma, sem calor.

    Triste...

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